O título que eu achei que precisava ter
- Renata Cantanhêde
- 8 de abr.
- 3 min de leitura

Era meu segundo mestrado. E, dessa vez, eu pensava que agora precisava dar certo.
No primeiro, eu tinha pouco mais de 20 anos. Achava difícil demais e, no fundo, nem queria estar ali. Eu tinha outras coisas acontecendo: um curso de arquitetura, um trabalho à noite, uma rotina cheia. Então escolhi largar e, por muito tempo, achei que tinha sido apenas uma questão de momento.
Mas, aos 28 anos, eu pensava diferente. Eu queria o título. Queria dizer que eu era mestre. Não era só sobre estudar. Era sobre ser vista como alguém inteligente, profunda, preparada.
Eu sempre tive uma visão muito acadêmica do mundo. Pra mim, as coisas precisavam de nome, de formação, de comprovação. Então eu fui de novo. Passei.
Era um mestrado profissional, na área de computação. Eu imaginei que seria mais leve. Não foi.
Minha rotina era uma mistura de tudo: trabalho cedo, aula depois, estudo à noite, viagens nos fins de semana por causa da tutoria EAD. Às vezes eu dormia sentada, com a cabeça encostada na mesa. Acordava assustada e seguia. E, por muito tempo, aquilo parecia normal. Eu achava que viver era isso: dar conta de tudo ao mesmo tempo. Ter tudo. Ser tudo. Nem me pergunte o quê, exatamente. Eu também não sabia.
Um dia, eu resolvi mudar. E a primeira coisa que eu fiz foi terminar um relacionamento de anos. Não com toda a coragem que eu gostaria. Eu disse “vamos dar um tempo”. Foi o jeito que eu consegui.
Logo depois, comecei outra relação. Não foi premeditada, apenas aconteceu. E, no meio dessa mudança, comecei a tirar coisas da minha vida. Parei de dar aula, encerrei as viagens, fui soltando, aos poucos, o que já não fazia sentido. Até que sobrou o mestrado.
E ele pesava. Muito. Não pelo esforço, mas porque não era meu. Eu estava ali por um motivo que, no fundo, não me sustentava: o título, o reconhecimento, a imagem.
Então eu saí.
Sem anúncio, sem explicação, sem conversa. Eu não tranquei. Eu abandonei. E fiquei em silêncio, porque eu tinha vergonha. Vergonha de não ter dado certo, vergonha do que poderiam pensar, vergonha de não ser aquilo que eu mesma dizia que queria ser.
Só que, no fundo, eu sabia.
Aquilo não era sobre aprendizado. Era sobre provar. E, naquele momento, eu já não queria mais provar nada. Ou talvez eu ainda não tivesse coragem de admitir isso completamente.
Até hoje, existe uma pequena dor quando eu falo sobre esse mestrado. Uma sensação de algo inacabado. Não porque eu queria ter continuado, mas porque uma parte de mim ainda queria aquele lugar: o lugar de ser vista como intelectual, como alguém que “chegou lá”.
Hoje, eu consigo olhar com mais clareza. Eu não preciso de um título para ser quem eu sou. Mas também não preciso fingir que esse desejo nunca existiu. Ele existiu. E ainda existe, de alguma forma. Só que agora ele mudou de lugar.
Recentemente, abri mão de uma pós em que estava inscrita. Era interessante, mas não fazia sentido. Ia apenas ocupar mais meu tempo, encher minha agenda. E faz tempo que eu não quero mais ser uma pessoa ocupada só por ser ocupada. Ainda assim, esse padrão de estar sempre em movimento, às vezes, insiste em aparecer. Quando me dei conta, eu só saí.
Eu não preciso sofrer por cada escolha que não se sustenta. Aprender a aceitar as partes de mim que ainda estão em construção tem me transformado em alguém melhor para mim mesma.
Não quero provar. Não quero mostrar. Não quero caber em lugar nenhum.
E, talvez, um dia eu faça o mestrado de novo. Mas não qualquer um, não de qualquer jeito, não por vaidade. Se vier, eu quero que seja com sentido, com escolha, com verdade.
Hoje eu entendo melhor o que é importante pra mim. E sustentar o que eu quero viver não passa mais por aí.




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